segunda-feira, 10 de outubro de 2011

E SE (WHAT IF)


Este final de semana me enchi de pipoca, Coca Cola e filmes românticos. Na verdade, foram dois. Um é o excelente Shrek Para Sempre, último da série e Cartas para Julieta, filme que há muito tempo eu queria ver. Ambos falam do tão ansiado felizes para sempre das histórias românticas.

E me peguei a pensar sobre isto. Como não consigo apenas me divertir, fico nessa de pensar, o que de cara já é uma grande bobagem. Cada dia mais eu percebo que felicidade e ignorância caminham lado a lado. Desculpem a divagação, me perco nas ideias.

Uma vez li num livro (e olha que nem sou o Cláudio Heinrich) que se um relacionamento durar apenas uma semana e isso lhe servir para crescer, se aperfeiçoar, terá sido o tempo necessário. Mas os nossos avós não se tornaram uma espécie de "felizes para sempre"? Pode ser que sim, mas e se... Me peguei a pensar no "E se..." de Cartas para Julieta. What if... E se o coração te indicar outros caminhos, que caminho você vai seguir?

Não foi a Clarice que escreveu "um belo dia a gente morre" para dar sua contribuição ao "e se..." e hoje quando abro meu twitter, vejo a seguinte frase postada por uma amiga: "Lembrar que vc vai morrer é a melhor maneira que eu conheço para evitar a armadilha de pensar que vc tem algo a perder." E se...

Somos todos os dias conduzidos a centenas desses "e se", deixando muitas vezes de ouvir nosso coração, de atentar ao fato de que felicidade não depende só de um e que, portanto, somos também responsáveis pela felicidade de outras pessoas sim. E infelicidade nunca é bom para ninguém, mesmo que aparentemente seja para dar a outros aquilo que nunca poderemos dar. 

Amar é dar a outro aquilo que não se tem. E se não temos, então tudo fica mais simples, não é mesmo? 

sexta-feira, 20 de maio de 2011

E NO TEMPO DA MÚSICA UM BREVE POEMA PIEGAS

foto: Tito Barbosa

E bem no tempo da música, aquela que nem é tão grande, aquela de quatro minutos e pouco, vem toda uma vida, todo o impulso de um coração no trampolim numa piscina de águas pouco transparentes.

Eu sei que é fundo e não sei ao certo escolher se pulo e mergulho até o chão ou permaneço na superfície. A superfície queima, mas eu a conheço. Eu a identifico. Posso sentir seu perfume e sua respiração. Falo de superfície mesmo?

Falo dessa música de pouco mais de quatro minutos e meio que faz meu peito se apertar como se fosse a própria mão de alguém que se afasta e te toca o rosto em despedida. É o olhar que permanece. É o olhar. O olhar se faz presente quando se pensa em... Amo? 

Nesse ímpeto de sentir e como velhos conhecidos workaholics da emoção, ainda é dia e sem sol o tempo nubla visões distorcidas de um beijo. Não permaneço, não preciso permanecer, há medo há tempos. E penso em um poema que diz

Toda praça se diz sozinha
até que alguém a encontre
e a madrugada sente seu vento
como um frio nunca antes visto
até que alguém se aqueça

Nunca disse o quanto me perdi
e nem como fiz para me salvar
eu poderia explicar que foi amor
mas não, não foi o amor

Eu poderia dizer eu te amo
que meu coração cuspiria suas flores
e se esvaziaria de cores
sem rimas, sem brilho, sem olhos

Mas de fato eu amo
E amo esses dias pequenos
Esses cafés que nunca chegam
E esse frio que não se aquieta

Então posso simplesmente correr
para longe de seus olhos
para longe de qualquer ponto cardeal
Eu poderia dizer qualquer coisa
que nada seria simples.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

SOBRE TEMPESTADES E PALAVRAS


Lembro-me que quando era pequeno e fazia catequese, me preparando para a Primeira Comunhão, assisti a palestra de um padre. Morava em Santa Maria, uma bela cidade do Rio Grande do Sul. O Pe. Osvaldo, um velhinho meio Padre Garotão, contou a seguinte parábola: Uma moça foi se confessar com o padre e afirmou que, por inveja, espalhou a falsa notícia de que uma outra moça havia perdido a virgindade com um namorado. Aquilo era um escândalo naquele lugar. Depois de se confessar, a moça perguntou qual era sua penitência. O padre, então, disse que ela precisava encontrar um travesseiro de penas de ganso e trazer até ele. 

Mesmo achando tudo aquilo muito estranho, a moça o fez. No dia seguinte, lá estava ela, confiante de que seria absolvida de seus pecados. O padre a conduziu até a torre da Igreja e ordenou a ela que abrisse o travesseiro e deixasse que as penas voassem. Ela o fez. Depois de todas as penas terem se desprendido e voarem sobre a cidade, o padre ordenou que ela saísse e recolhesse todas as penas de volta. A moça revoltada disse: "Mas padre! Isso é impossível!". E o padre muito tranquilamente respondeu: "Assim como é impossível você recolher todas essas penas, é também impossível que você consiga trazer de volta a honra dessa moça".

Sempre me lembro dessa história quando penso em falar mal de alguém, fazer fofoca mesmo. Somos todos humanos, afinal. Mas nos últimos dias tenho pensado nessa parábola por outro sentido. Aquela máxima de que levamos cem anos para construir um edifício e podemos destruí-lo em menos de dez segundos faz muito sentido. Às vezes, temos amigos, somos queridos, admirados, mas como diria Tim Maia, "os fãs de hoje são os linxadores de amanhã". 

Qualquer deslize pode manchar uma reputação que tenhamos suado para alcançar e a vida nos cobra isso de uma maneira pouco cordial. Às vezes, o máximo que nos acontece é perder os amigos, os fãs, mas pode ser pior. Podemos ser julgados, condenados, penalizados pelos erros cometidos num momento de mera distração. Ninguém está livre porque ninguém é santo. Ninguém. Somos todos passíveis de cometer erros e podemos ser os próximos. 

E o perdão? Onde fica nisso tudo? Concordo que o perdão é necessário, é imprescindível. Justamente por nossa condição humana de errar. Mas como disseram por aí, o perdão não exclui a responsabilização. Gosto de pensar, entretanto, com todos esses caminhos estranhos a que somos conduzidos na vida na famosa frase do Guevara: Hay que endurecer, pero sin perder la ternura. 

terça-feira, 22 de março de 2011

AMANHÃ?

Foto: Miguel Queirós Pinto

Quando dá vontade de dizer a quem você ama é necessário correr, atravessar os montes e driblar medos. É urgente! Não se pode esperar, não se pode pensar, é necessário dizer. Temos corrido por tantos motivos e gastado nosso tempo com insuficiências que não podemos, não temos o direito de deixar que o amor que trazemos dentro do peito se transforme em vento e em palavras não ditas. Melhor dizer. Melhor pecar. Melhor chorar por amor do que pela falta dele. 

E quando preenchemos nossos dias com qualquer coisa que não amamos. Abandonemos! Nada vale mais do que ser feliz, tostão algum paga nossa infelicidade. Se você sabe o que ama, se sabe quem ama, então vá! Porque mesmo que receba um não, saberá ao menos que tentou, que foi em busca daquilo que sonhava. 

É urgente que usemos nossa vida para encontrar a felicidade. É preciso ver o mundo que se descortina ao nosso redor e redescobrir uma forma, uma maneira de vê-lo. Somos soldados numa guerra fria diária e nosso inimigo é  esse sistema que dita nossa vida pela comparação. Não me compare a outros, não se compare a ninguém. Dance! Sorria! Ame! É urgente! Isso sim é urgente.

Porque amanhã... Bem, amanhã nem sabemos que existe.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

ANGÚSTIA

Foto de Hernani Faustino

Entrei no metrô com a discreta sensação de que deveria ter ficado em casa. Essa vontade que às vezes sentimos com uma intuição que nada mais é do que medo e falta de vontade de conviver, coexistir. Desci aquelas escadas com o ódio dos oprimidos, de quem não quer ou não consegue interagir e precisa, se sente obrigado para não ser esquecido, cumprir papel, não magoar.

O trem ainda demoraria a chegar e meu peito arfava como o peito de um cão cansado da corrida matinal com seu dono. Eu arfava como quem vai desmaiar ou dormir. Como quem está cansado de insistir. O tempo não passa, o telefone insiste e a fome não há. 

Penso num campo escuro com o céu estrelado e um silêncio que cala as vozes que trago no peito e na mente e me falam sem parar. Você vai? Vai mesmo? Não. Não vai. Vai. Vai. Não. Não quer. Não deveria. 

Chega o trem. 

Entro.

Mil pessoas. Centenas talvez. Uma língua diferente dentro do vagão. Estrangeiros. Estrangeiros aos montes e penso que aquela deve ser a sensação de quem chega a um pais estranho. Vozes infinitas de uma língua que não se conhece. Me sinto estrangeiro em casa. E me sinto sempre estrangeiro em casa. Estranho. Fora de lugar. Fora de onde deveria estar e onde deveria estar nunca soube. Nunca descobri.

Me vem no peito um nó. Choro. Discreto. Lágrimas vertem e me lembro de um choro convulsivo que tive algum tempo atrás. Tive medo de começar e não parar. Tive vontade de alguém que me perguntasse se estava passando mal. Eu diria "me tire daqui, me leve e me tire daqui." Para onde ir? Não saberia dizer.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

AQUELAS MÃES POSTIÇAS

Tenho uma família que não é perfeita, mas isso pouco importa. Nunca invejei a família de ninguém porque tenho um amor tão grande por aquela que me recebeu a ponto de nunca pensar em outra. Nunca mesmo. 

Mas a vida... A vida tem dessas coisas. Dia 2 de fevereiro. Dia de Yemanjá. Algumas pessoas dizem que trago a Rainha do Mar como uma das entidades que me regem. Verdade ou não, o fato é que o dia 2 de fevereiro tem um significado profundo na minha vida. Desses significados que deixam essa marca indelével.

Quando eu tinha uns 13 anos, morava numa cidade no estado de Goiás, estava numa fase típica de adolescente problemático e incapaz de lidar com a própria sexualidade. Uns se afogam em livros, outros nos games, alguns como eu vão para a Igreja. Eu vivia no meio de frades, em aulas de catequese, coroinhas e todos esses grupos que alguém já deve ter participado. 

Conheci numa dessas a Marlene. Marlene representava pra mim uma mistura de Rainha da Sucata com Viúva Porcina. Tinha uma vibração e uma alegria que contagiava, ao mesmo tempo uma franqueza que eu conheci em poucas pessoas e que me conquistaram de cara. Sempre preferi os francos aos educados. Tivemos uma relação de amizade tão forte que todos sentiam ciúmes. Marlene tinha naquela época 33 anos, eu 13. E fazia aniversário no dia 2 de fevereiro. Admirava sua garra, sua capacidade de vencer, de passar por cima dos problemas como quem enfrenta dragões. Marlene faleceu em 2006. Tinha um problema no coração e não resistiu a uma cirurgia. Logo ela que tinha um coração tão grande.

Anos se passaram. Quando soube da morte da madrinha Marlene já morava no Rio há três meses. Nos falamos pela última vez uns 3 anos antes. Percebi o quanto deixamos o tempo passar por nós sem nos abalar, sem perceber.

Neste mesmo ano, dois meses depois conheci D. Sônia, mãe de todos que a conheciam. Cozinheira de mão cheia lá do Mato Grosso do Sul. Essa também. Mulher forte, vibrante, com aquela mesma capacidade de te falar as maiores verdades e os mais impropérios na cara. Nos adotamos. E aqui no Rio, sozinho, longe da minha família, me tornei filho. Encontrei uma família que ninguém tinha. Enquanto meus pais estavam lá longe era com Sônia (ou Mammy) que eu encontrava alento e cuidado. Aos 26 anos jamais imaginei que seria tratado do mesmo jeito que minha mãe me tratava desde sempre. 

Sônia fazia aniversário em 3 de fevereiro, não era 2, mas era perto. Faleceu em 19 de novembro de 2008 após aproveitar muito a vida. Acho que poucas vezes chorei tanto como naquele dia.

E nessas horas eu penso como é bom ter minha mãe, meu pai. Como é bom não estar sozinho no mundo. E como o tempo passa rápido e insensível por nós. 

E se Yemanjá é mesmo minha mãe espiritual, deve haver algum sentido em ter colocado duas mulheres tão parecidas de dias tão próximos na minha vida. Obrigado.

Texto que escrevi após o sepultamento de Sônia aqui.

UMA TARDE NO CAFÉ


Chuva interminável e constante na cidade história fluminense. As opções para um jovem artista lationamericano sem muito dinheiro no banco poderiam ser muitas: olhar lojas de artesanato ou... olhar lojas de artesanato. Preferi fazer o que faria em qualquer tarde ociosa de qualquer lugar do mundo: entrar num café.

Não são poucas as experiências que se pode viver num café e me desculpem os boêmios de boteco, prefiro a boemia quente de um bom café e de conversas quase sussurradas como numa Igreja.


E num café pode-se discutir filosofia, arte, sexo, amor e se descobrir coisas obscuras e secretas. Pode-se ter acesso a certas intimidades que às vezes nem entre quatro paredes se pode ter.


Assim como bar, um café também atrai sua gama de loucos, mas são loucos quase mansos e que se enchem de conhaques ou vinhos.


A loucura em um café vem de forma lânguida e sensual. Num café dificilmente uma discussão terminará em socos, mas provavelmente com alguém indo embora fulo da vida.


Entre a clientela há os mal-humorados, os discretos, os cismados, os solitários e acabrunhados, os nerds e as putas de fina categoria. Há os artistas e intelectuais.


Feito um ponto de peregrinação, no final das contas, um café tem em sua essência o discreto charme da burguesia.


E por que não?